A saudosa
pensão do senhor Armando
Ainda existe hoje e fica na rua Conde São Joaquim , n 118, Bela Vista.
É o casarão beige e embaixo funciona uma lanchonete.
Hoje falamos
muito em cortiços onde se espremem várias pessoas ou famílias .
Na minha
memória surge uma pensão na Bela Vista, exatamente na Rua Conde São Joaquim.
Não são
memórias ruins, pelo contrário. Tratava-se de um casarão de um português, Sr
Armando, onde cada quarto abrigava uma família de imigrantes. Meus pais, recém
chegados da Grécia, viram lá um abrigo, um acolhimento.
No primeiro
quarto ,logo na entrada, morava um casal de gregos e sua filhinha Eugenia que
até hoje é minha amiga.
No corredor
ficava o nosso quarto ( meus pais e eu , pequenina ainda).
Havia uma
cozinha coletiva com grandes fogões, onde todos cozinhavam. Esses flashes nunca
saíram da minha cabeça.
Num cantinho
da cozinha, num aparador, ficava o filtro de barro . Me vejo subindo num
banquinho para pegar água.
Meu pai
trabalhava fora, em dois empregos , minha mãe passava horas e mais horas
costurando para fora. Lembro-me que nem sabia falar português.
Minha mãe me
contava que costurava para uma confecção e fazia as casinhas para os botões na
máquina caseira. Era uma trabalheira. Toda vez que entregava as roupas, lhe
explicavam que ela não precisava fazer as casas porque tinham máquinas
especiais para isso. A grega custou a entender. Não sei bem se morei lá até uns
3 anos , mais ou menos. Na foto, apenas para dar idéia de como era o casarão,
há uns degraus antes da porta de entrada. Foi de lá que eu despenquei com meu
guarda-chuvinha e uma das hastes me furou na altura doa lábios. Tenho até hoje
a cicatriz.
Havia mais
gregos por lá e, de vez em quando, umas discussões por causa de fofocas.
Minha mãe,
sempre à frente do tempo, linda de viver, alta, esbelta, nunca levou desaforos
para casa e defendia sempre quem era injustamente atacado. Numa das vezes fez
uma fofoqueira correr de medo , com uma faca nas mãos. Nunca mais essa dona
abriu a boca e depois de anos tornaram-se grande amigas.
Lembro-me
direitinho das brincadeiras com minha amiga Eugenia, das noites em que eu
adormecia na caminha ao lado da máquina de costuras, onde minha mãe atravessava
as noites.
O senhor
Armando, dono do casarão, era um bom sujeito. Ajudava meus pais a aprenderem o
idioma.
Depois de
anos, quando eu e meus pais mudamos para outra localidade, ele nos visitava e
presenteava com vinho do porto.
São memórias
que guardo com muito carinho , de um início de vida de meus pais, num país tão
longínquo.
Nasci poucos
meses após a chegada deles e também por esse motivo, nunca se entregaram,
lutaram e foram vitoriosos.
Sempre digo
que não tenho direito de fraquejar já que tive fortes alicerces na vida. Só
gratidão por tudo.
Eu e minha amiguinha Eugenia na porta do casarão
Uma linda história.
ResponderExcluirLeitura gostosa.
Já pensou em publicar um livro?
Gostaroa sim.
ExcluirTacia, era exatamente como vc narrou. Pura realidade, nua e crua.
ResponderExcluirPara as crianças era tudo normal, tudo que conheciam.Para os adultos era uma luta!
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